Hoje eu fui substituir o ilustre Sr. Ricardo Portilho numa palestra numa universidade em São Paulo. Para quem não sabe, o Portilho é um dos mais respeitados profissionais em bancos de dados Oracle do Brasil e por acaso também é um Oracle ACE. Mas sobre tudo é alguém que tem um espírito crítico aguçado que o torna para mim uma fonte de informações das mais confiáveis. Em maio o Portilho escreveu um artigo que realmente me chamou a atenção, sobre as práticas comerciais duvidosas da Oracle na tentativa de empurrar o Oracle Cloud no mercado. Depois assisti sua palestra no GUOB com um guia intrincado para não ser multado pela Oracle, com suas inúmeras funcionalidades pagas à parte. Eu sempre tive minhas dúvidas sobre como seria colocar uma base Oracle na nuvem, mas assistindo a palestra do meu antecessor hoje, sobre Cloud, vi o tamanho do buraco em que eles estão metidos.

Primeiro existe uma questão técnica complicada. Na nuvem uma das coisas importantes é ter agilidade, flexibilidade e embora no Oracle 12c (o “c” é de Cloud mesmo!) tenham coisas muito interessantes como a arquitetura multitenant, o Oracle vem caminhando na contramão há tempos. Veja, uma das coisas bacanas de se usar na nuvem é o Docker. Poder distribuir serviços como pequenas caixinhas que você pode subir, descer, mover, duplicar etc, de forma ágil e segura. É óbvio que o Oracle Database não roda no Docker. O motivo é simples, o Oracle é um dragão com tentáculos por todo o sistema operacional. Na versão 9i o Oracle já tinha a opção de gerenciar toda a memória para você, tirando essa função do sistema operacional. A própria instalação do Oracle é uma piada de mau gosto para o SO. Ele traz o seu próprio Java, seu Apache, seu Perl e um zilhão de ferramentas empacotadas todas numa única caixa preta. Depois, no 10g veio o ASM, onde o sistema de arquivos do SO dançou. Enfim surgiu o Exadata, onde o hardware se tornou acoplado ao software numa única caixa preta – Na Oracle eles chamam aquele super hardware do Exadata de “lata”, afinal, o hardware deve valer uns 10% do custo total, quem vale mesmo são as licenças! Então a Oracle criou a ideia de “Privete Cloud”. A ideia não é ir para a nuvem, é montar uma estrutura tão grande que você tem a sensação de ter comprado a nuvem toda para rodar dentro da sua empresa. A verdade é que não apenas não é possível rodar o Oracle Database como docker container, como não é possível também rodar um Oracle RAC na Amazon. O motivo é simples, o RAC depende de uma interconexão física entre os nós de excelente qualidade. E na nuvem toda a camada física é virtualizada. Não há como garantir que esta conexão física exista de fato. O Oracle Database não nasceu para surfar na nuvem.

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O futuro é livre

A Oracle fez um enorme investimento no Exadata, atingiu um desempenho espetacular com tecnologia e arquitetura de ponta. Mas ficou caro. Muito caro. As recentes mudanças no licenciamento do Oracle Standard One a partir do 12.1.0.2 foram um golpe duro para muitos usuários por exemplo. E todo ano a Oracle gasta alguns bilhões comprando novas empresas, nem todas muito lucrativas. Alguém tem que pagar esta conta. E o usuário final é quem paga, claro. Em resposta a isso a Oracle nos diz: quer baixar seus custos, vá para a nuvem! Acontece que muitas pessoas já foram para nuvem…

E na palestra de hoje o palestrante demonstrou as qualidades do OpenStack. Uma ferramenta fantástica. Muito bacana mesmo. Ele tem algo que interessa muita gente, assim como interessou as pessoas que adotaram o Linux, a liberdade e o preço. E esse jogo não é novo. Alguém aqui lembra do Betamax? Foi enterrado pela história enquanto o VHS reinou por muito tempo. E uma das grandes qualidades do OpenStack, além de ser gratuito é justamente a liberdade. Liberdade em mais de um sentido. É um software livre, no sentido que você pode usar, ver o código fonte, alterar e redistribuir. Mas vai mais além, usa padrões abertos, o que facilita muito a vida do universo. Alguém lembra o estrago que foi o padrão proprietário do HTML da Microsoft? Mais além, ele não tem um dono, como o MySQL que era desenvolvido pela MySQL AB, que foi comprada pela SUN que foi comprada pela Oracle. E ele tem um modelo de desenvolvimento decentralizado que permite a participação ativa da comunidade. Alguém aqui lembra o RaiserFS? O projeto quase afundou quando o desenvolvedor foi preso. Essas quatro liberdades fazem muito sucesso em ambientes como a nuvem. E qual o banco de dados tem essas quatro liberdades hoje? Sim, o PostgreSQL. E os casos de sucesso na nuvem não param de pipocar por aí. Basta ver o sucesso do Heroku ou do Instagram por exemplo.

Sem dúvida a Oracle representa um universo gigantesco hoje. A IBM também já foi conhecida como a Big Blue antes de começar a vender seus pedaços até diminuir e se ajustar a um nicho específico de mercado. Muita areia vai rolar no mercado ainda. Mesmo com os lançamentos de tecnologias cada vez mais incríveis no mercado de banco de dados, um número cada vez menor de pessoas vai estar disposta a pagar uma diferença tão grande de preço e perder tanta liberdade e flexibilidade no futuro. O lançamento da versão 9.6 do PostgreSQL mostra que ainda existem funcionalidades importantes para serem desenvolvidas, mas a diferença para a grande maioria dos usuários diminuiu muito. Haverão demandas que apenas um Exadata, um Teradata ou um DB2 darão conta. Mas para a maioria esmagadora do mercado, isso não fará muito sentido. Claro que o mercado não é regido por uma competição justa. Existem vendas casadas, processos na justiça, patentes e uma miríade de recursos que podem atrasar a comoditização dos bancos de dados. Mas sejamos francos, ela já está acontecendo.

2 respostas

  1. Opa Fábio, ótimo artigo, bem provocador. Acho que você está certo quanto a comiditização dos BDs. No que diz respeito a nuvem, há de se considerar também o crescimento de plataformas que oferecem armazenamento de dados como serviço, firebase por exemplo. A idéia é trazer muita agilidade ao abstrair questões complexas de infraestrutura com um custo bem competitivo.

  2. A única coisa que acho que as empresas não estão preocupadas é a liberdade.
    O software ser livre ou não, para o empresário, pouco importa. Para o gerente de T.I importa sim.
    Mas o empresário quer saber se o produto(ou projeto de Software Livre) irá atender a demanda de sua empresa. Caso atenda, irá olhar o TCO.

    Sinceramente acho que 0,00001% dos empresários se importam com a liberdade.

    O que vc acha?

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