Kit felicidades

Fim de ano é sempre bacana, mas cansa. Depois de 5 anos eu finalmente consegui tirar uma semana de descanso entre o natal e o ano novo. Imperou a lei do mínimo esforço. Nada de passar o ano novo na praia e pegar aquele trânsito infernal, nada de filas colossais, etc e tal. Foi bom, mas tem algo que dá muito trabalho nesta época. Por uma convenção coletiva, pessoas que você nunca viu na vida ou que nunca lhe dirigiram um único sorriso sincero resolvem lhe desejar um monte de coisas. Nada contra. Acho que os laços de fraternidade são sempre positivos e devem ser incentivados. Na verdade, verdade mesmo, acho que a gente passa muito tempo desejando e pouco tempo realizando. Afinal, intenção nesta terra não vale muita coisa, nem mesmo por escrito. Mais que isso, existe aquela coisa compulsória de que um dia específico tem que ser o mais importante do ano. Meu pai já me dizia que a pior coisa que se possa desejar para uma noiva é que o dia do seu casamento seja o mais feliz da sua vida. Isto significa que todos os outros dias depois serão sempre piores!

Não, isto não significa que eu odeie as festas de fim de ano. Muito pelo contrário, eu sempre adorei, com raras exceções. Veja, tenho lembranças de natais excelentes com a família quando eu era garoto. Passei o ano novo com amigos em viagens inesquecíveis na adolescência. Hoje me divirto com meus filhos, monto os brinquedos deles, solto rojão, etc. Mas calma lá. Primeiro há quem não comemore o natal. É verdade, o cristianismo não é a única opção existente na prateleira das religiões. Os judeus comemoraram Hanucá, os muçulmanos o Eid ul-Fitr, os discordianos comemoram o Dia de St. Tib e por aí vai. E não são só os feriados religiosos que não batem… imagine que 1/4 da população do mundo vai comemorar o ano novo em 7 de fevereiro, detalhe, a entrada do ano 4705. Sim, estou falando do ano novo chines.

Não é só o comércio que adora datas comemorativas como dias dos pais, das crianças, dos avós etc e tal. Existe um fetiche com datas: data de aniversário, data do primeiro beijo, do casamento, do batismo. Há os mais entusiastas que lembram do dia em que andaram pela primeira vez de bicicleta, conseguiu o primeiro emprego, tomou o primeiro porre, bateu pela primeira vez o carro e por aí vai. Prefiro ainda as pessoas que esquecem a data do próprio aniversário mas não se esquecem de lhe convidar para tomar uma cerveja na sexta-feira!

Calendários são coisas realmente curiosas. Não apenas o Calendário Chines, que foi reformado dezenas de vezes. No Calendário Hebreu, o ano um, que é o ano da criação, começou em 3761 AC. Assim, para eles, estamos no ano de 5769 e não havia mundo antes disso. Pelo Calendário Islâmico estamos no ano 1428, o marco zero é a migração de Maomé de Meca para Medina. Um detalhe, o ano deles possui apenas 354 dias (12 ciclos lunares) e não 365 dias. Na Terra Média, a 4ª Era se inicia com a destruição do Um Anel por Frodo. Aparentemente os calendários surgem em situações não tão diferentes das propostas por Tolkien.

Os limites epocais são geralmente definidos por grandes momentos históricos, como o início de um novo regime político ou uma revelação divina. E vira e mexe tem alguém querendo mexer nos calendários. Ocorre que o calendário mais usado no mundo é o Gregoriano, que tem como limite epocal o nascimento de Cristo que, convenhamos, ninguém sabe bem ao certo quando e onde foi. O primeiro dia do ano também variou em muitos lugares, geralmente se adequando a feriados religiosos ou políticos. Os romanos que passaram a comemorar o ano novo no 1º de Janeiro também mudaram de data várias vezes. Veja que o tamanho do ano é algo que também variou muito até Júlio César colocar ordem na casa (e criar um mês com o seu nome).

O problema é que Deus fez o mundo com muita pressa e criou uma confusão para os astrônomos. Se Deus fosse mais cuidadoso, estudaria um pouco mais de matemática e facilitaria um pouco mais a nossa vida. Veja você que o calendário solar e lunar não batem nunca. Uma lunação sempre tem 28 dias. Mas o ano não tem um número exato de lunações. Um mês não corresponde a uma lunação. Um mês sequer tem um número fixo de dias. Assim os dias da semana que são regidos pelo calendário lunar, nunca batem com os meses que são divididos pelo calendário solar. Mas a coisa não para por aí. Nem mesmo um ano compreende um número exato de dias, são 365,2425 dias por ano. Aí toda a nossa vida fica complicada com anos bissextos e outras traquinagens. Para complicar mais… o tamanho dos dias não é composto por exatamente 24 horas de 60 minutos com sessenta segundos cada. Sobram 0,002 segundos por dia! Isto representa 0,7 segundos por ano. Mais ajustes nos relógios são feitos a cada 18 meses. Isso é uma verdadeira maldição. Os sysadmins e economistas se autoflagelam todo dia pedindo a Deus que isso mude um dia.

Bom, no caso dos segundos, a culpa é nossa mesmo, afinal, nós não criamos os períodos de movimentação da terra e da lua, mas nós inventamos o segundo. Alias, nós o reinventamos várias vezes. Um segundo, hoje, equivale a 9.192.631.770 períodos da radiação característica do Césio 133. Um detalhe bizarro é que em 1997 fizeram uma pequena alteração na definição, restringindo o teste a um único átomo de Césio na temperatura de zero Kelvin. Isto significa que o segundo é uma unidade de tempo que ninguém jamais mediu segundo a sua própria definição.

Mas bizarro mesmo é a definição das datas comemorativas mais antigas como a Páscoa. A data da Páscoa foi motivo de muito debate em 365 DC, no famoso Concílio de Nicéia. Para começar a conversa, o Calendário Hebreu era lunar e calcular a data exata da morte de Cristo não era tão simples assim. Em segundo, na época haviam outros feriados que poderiam coincidir. É claro que um concílio com gente de tudo quanto é lugar ia dar problema, pois cada um tem seus próprios feriados. Isso é tão fácil como querer agendar uma reunião de diretores sem a presença do presidente. Bom, o fato é que até hoje tem gente que comemora a Páscoa em outra data. O conselho falhou miseravelmente. Resultado, o feriado, bem como uma série de outras questões religiosas dependem de escolhas humanas e não divinas. Não imagine um feriado específico comemora um número inteiro de vezes que a terra girou em torno do sol a partir de uma data histórica. A chance de comemorarmos com alguma precisão um evento que ocorreu há mais de 2 mil anos é muuuito remota. Sorte dos historiadores que vão ter emprego para o resto da vida.

Para os ocidentais cristãos e principalmente para os brasileiros, a Páscoa é o segundo feriado mais importante do ano. Afinal ela regula a data de uma série de outros feriados incluindo o mais importante deles: o carnaval. Todo brasileiro sabe que o ano só começa depois que as pessoas se curam da ressaca do carnaval (com a notória exceção da Bahia onde os cientistas ainda não chegaram a um consenso se o ano chega a começar algum dia). Assim sendo, o dia 1º não tem nenhum significado civil para nós. Alguém inventou o dia da confraternização universal, mas para nós é mais uma desculpa para bebemorar. De qualquer forma confraternização para valer ocorre no carnaval. Ponto final.

Para quem mora em cidades grandes como São Paulo, os feriados são uma verdadeira praga. Apesar disso, quem trabalha com TI pode não se importar tanto. Não existe melhor data para migrar um banco de dados em produção do que um bom feriado prolongado. Por outro lado, quem trabalha como PJ e ganha por hora sabe que feriado é sinônimo de prejuízo no bolso. Enquanto os outros aproveitam para lotar as estradas e cinemas, você apenas vê seu salário sumir. Por mim, até os finais de semana deveriam ser intercalados. Esse negócio de todo mundo folgar no domingo é uma encrenca. Se eu pudesse escolher, jamais tiraria folga num domingo. O planeta tem gente demais para todos quererem folgar no mesmo dia.

Ao fim e ao cabo, a questão é que o fim de ano é um exagero. Um grande exagero. Não tem fundamento religioso ou científico. É uma convenção coletiva e ponto. Graças aos filtros anti spam eu já nem vejo aquelas centenas de e-mails com anexos com slides coloridos com música da Simone ao fundo. Cartões Virtuais executáveis não rodam nativamente no Linux, o que significa que aquela enxurrada de vírus que chegam no fim do ano também não chega aqui. Mas fica a obrigação de cumprimentar e ser cumprimentado por todo mundo.

Vou lhe dizer, isto dá mais trabalho do que se imagina. Cada um vem com uma receita mais comprida que o outro. Há quem decore um discurso inteiro para cumprimentar as pessoas. Todos só querem o bem dos demais, mas expressar tudo isso é muito demorado. Deveriam inventar alguma expressão idiomática para encurtar a história toda. Eu desejo a todos um “Kit Felicidade” com tudo que você quiser dentro. Você quer saúde? Tem primeiros socorros e plano de saúde 5 estrelas no kit. Tem até receita para emagrecer sem dieta! Você quer prosperidade? Tem Tele Sena premiada para toda família no kit. Você vai inclusive aparecer no Sílvio Santos! Paz? Tem tropas da ONU garantindo a paz mundial no kit; junto com cerveja, terapeuta ou incenso, dependendo da sua convicção. Enfim, se eu esbarrei ou não com você no fim do ano e não cumprimentei ou escutei você adequadamente, então não se incomode. Desejo um kit felicidades cosmopolita e ecumênico para você. Não só hoje ou no ano novo, mas todos os dias. São os mais sinceros votos que eu tive a competência de escrever. Mas veja, ninguém pode dizer que meus votos não são realmente sinceros, e isso deve valer alguma coisa. Quase tanto quanto a sua paciência de ler até aqui.

7 comentários sobre “Kit felicidades

  1. Olá,

    Comentário dois anos depois, mas você pediu por eu ser um dos destinatários do e-mail que enviou hoje, citando este texto. Obrigado por enviar o texto, gostei muito.

    Se já não o esta fazendo ou pensando seriamente em fazer, você deveria estar pensando em escrever um livro. Você escreve bem, de forma correta e consegue manter a atenção do leitor.

    Parabéns e abrigado pelo kit 🙂

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  2. E me diz por que se Jesus nasceu em nosso 25 de dezembro??? Por que não convencionar dia 1° de janeiro???
    Convenção por convenção a gente ta digitando em uma das mais burras, o teclado…
    Para falar a verdade eu NÃO gosto de natal, ano novo é massa, mas natal, nem o vinho é bom…
    Mas, vamos ao que interessa, boas festas! Ao menos a comida é boa! Saúde, para que eu possa reclamar no próximo natal….

    Curtido por 1 pessoa

  3. Pingback: SAVEPOINT » Janeiro

  4. Querido,coisa boa ter recebido teu texto,agradeço o kit colocoraria nele meu afeto e disponibilidade para voce e teus queridos.
    Abraço forte

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  5. Pingback: De volta aos 18 anos! | Savepoint

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